19.6.13

A (não) ida aos Picos da Europa.

A preparação
A ideia da viagem já andava pela minha cabeça e pela do Tiago desde dezembro de 2012. Foi nessa altura, uns meses depois de fazermos a N2, que decidimos que em 2013 o destino seria outro: Picos da Europa. 
Depois do destino, decidimos informar-nos. Começámos por ler alguns relatos de quem já lá tinha ido, para decidirmos o percurso, onde dormir, o que ver, etc.

Resolvemos fazer o caminho "pelo outro lado". Íamos até Léon e depois entrávamos nos picos por Potes, mais a este.
E assim foi. Uma tarde em minha casa e planeámos o percurso. Estávamos decididos a fazer não mais de 300 quilómetros por dia, para podermos parar, fotografar e não nos cansarmos. A exceção seria a saída dos Picos para Salamanca, onde queríamos passar uma noite. 

À partida seríamos sete motos e oito pessoas. Um número não muito pequeno (para mim, o ideal são 4 motos), mas que era perfeitamente aceitável. Em Dezembro já tínhamos tudo planeado. O percurso, as dormidas, com uma noite a ser passada na encosta da Serra da Estrela. 


O início (do fim)
Em Janeiro chegam notícias... O Tiago e a sua pendura não podiam ir (foram abençoados com uma gravidez), bem como três das outras motos, devido a outros compromissos (afinal de contas é mais um ano de troika).

Entre o planeamento e o arranque acontece o descalabro. Das 7 motos iniciais, passámos para apenas duas. E instala-se o pânico. Fiquei eu e o Rui. Era dia 29 de maio e eu fiquei maluco. Porque defendo que uma viagem deve ser partilhada. E quando o local é completamente novo e "emblemático", quanto mais pessoas partilharem ideias, mais rica fica a viagem (e respetivo relato). No mesmo dia ligo ao Rui. "Pá, só estamos dois para ir aos Picos. Como é?" "Não sei. Uma viagem destas deve ser feita com quatro motos, pelo menos. A do ano passado foi muito boa por isso." "Pois! Eu percebo-te. Mas como é que podemos fazer?" "Não sei. Vamos pensar um dia e depois vemos..."


O reinício
Eu já tinha os dias de férias marcados e estava ansioso por pôr a Josefa a conhecer sítios novos. Sendo assim, parti logo para a net. Passei pelo fórum "Motos & Destinos" e procurei por "viagem Portugal". Logo apareceram os relatos de várias pessoas que tinham andado pelo nosso país... li todos e pensei com os meus botões... e se desse a volta a Portugal? Logo dito, logo pensado. Ia mudar completamente o "bico ao prego". Em vez de uma viagem "organizada" como tinha sido a do ano passado (é verdade, eu adoro ter os pontos de chegada já pensados) ia fazer ao estilo "vou e depois logo se vê". Sabia mais ou menos onde queria passar e as estradas que poderia fazer, o que queria experienciar e o estilo da viagem.

Email para o Rui "Pá, voltita a Portugal? Temos as férias já marcadas. Em vez de as desmarcarmos, vamos conhecer sítios que nunca vimos em Portugal. E aproveitamos para comer e beber que nem uns lordes. Que dizes?"

Entre a pergunta a resposta ainda passou algum tempo. Eu já pensava na minha vida... estava disposto a ir sozinho. Era uma oportunidade para me desligar do trabalho, da net, dos problemas e rotinas de todos os dias. Estava decidido que levava o portátil para escrever uma crónica diária, a GoPro para fotografar uma ou outra estrada mais catita e outra máquina fotográfica, para as outras situações. A tenda, o saco cama e uma lanterna foram também adicionados. E estava pronto para seguir.

Entretanto o Rui ainda não tinha respondido. "Deve estar a mil no trabalho", pensei eu.

4 de junho. Recebo a chamada do Rui. "Pá, deixa ver se consigo livrar-me de alguma coisa daqui do trabalho. Como lhes disse que já não havia viagem aos Picos, eles fizeram uma revisão ao meu trabalho. Deixa ver. Depois eu ligo-te."

Entretanto também o Tiago me enviou um email. "Por onde vais andar entre 9 e 10 de junho?". "Pelas minhas contas, no interior, mesmo no interior. Mas eu envio-te o que planeei e depois vês." 
"Pá estive a ver. Vou tentar juntar-me a ti durante dois dias. Está cá um amigo meu, também. Possivelmente também o levo." "São os dois bem-vindos. Levem tenda."


Dia 9 de junho
Porto - Arouca - Castro Daire - Guarda
“Ai se não fosse o amor da minha vida, fugia contigo”

Saí de casa cerca das 10:30, mas não estava a olhar para o relógio. O passo seguinte foi atestar a moto. Tarefa concluída, era altura de pôr o GPS a apontar caminho. 

[a quilometragem à partida]

Arouca era o ponto intermédio deste primeiro dia. A estrada era boa, embora o chuviscar não me deixasse tirar partido de tudo o que as curvas tinham para oferecer. A moto estava carregada mais que o normal, o que, a princípio, foi uma sensação estranha (sempre eram 25-30 kg a mais que o normal).

Parei no centro de Arouca. Tirei umas fotos e deu para reparar que a chuva incomodava mais quando estava parado do que em andamento. Dei uma voltita a pé para tirar umas fotos. O sítio é engraçado, arranjado, pequeno, típico do interior norte.
Fui ao Café Central beber uma água. Aproveitei para me sentar e ouvir umas conversas. Falava-se das pessoas que tinham emigrado. Melhor, falava-se dos homens da terra que estavam fora e de como as mulheres deles andavam ali, ao “Deus dará, sabe-se lá a fazer o quê”. A certa altura, a senhora do café, enquanto falava com um dos clientes, disse “Ai se não fosse o amor da minha vida, fugia contigo”. Ri-me, claro. Não é todos os dias que se ouve uma afirmação assim de uma senhora com cerca de 50 anos. 
[uma vista de uma praça de Arouca]

Rabo na moto e e lá vou eu outra vez. Castro Daire. Já lá fui várias vezes. Passei a correr quando fiz a primeira Nacional 2 (em novembro de 2011), outra vez em 2012 e há uns dois meses, numa voltita matinal. Sentei-me num café. Como era hora de almoço, pedi uma mini, um prego no pão. Não houve histórias (infelizmente). 

Paguei e resolvi pôr óleo na corrente da moto. E agora vem a estupidez. Castro Daire fica numa espécie de encosta. A moto tinha ficado numa espécie de patamar em ferro, por cima do resto da vila. Estava a 15 metros do chão. Quando tentava encaixar o “pipo” na lata de óleo, ele caiu-me. Mas não foi ao chão. Foi mesmo “lá abaixo”. Olho à volta, a ver se alguém tinha reparado. Meto-me na moto e lá vou eu procurar o pipo (sim porque, sem ele, a lata de óleo de corrente é inutil). Um quilómetro depois encontrei a entrada que ia dar abaixo do tal patamar onde estava.
[o grande azulejo em Catro Daire]

Primeiro passo na “busca do pipo perdido”. Pôr a Josefa no descanso. O piso em descida foi um desafio. Superado. Segundo passo: subir a encosta e encontrar a tal peça. Cinco minutos depois de me agarrar a rochas, plantas e andar no meio do lixo encontrei-o. Quase vitória. Tinha de descer. E enquanto o fazia, vi que tinha assistência... um homem tinha parado, admirado, a ver o que estava a fazer. Botas e calças sujas de terra. Mas o pipo “já cá cantava”.

Guarda: vamos lá. A estrada era engraçada e acompanhava o Rio Ester. Foi assim até Aguiar da Beira, onde fui até ao centro. Era hora de beber mais uma água no café mais “movimentado”. Dez minutos depois já estava a andar outra vez. E aqui surge uma estrada que me deixou com um sorriso de orelha a orelha. Era a N326, se não me engano. Piso fabuloso, curvas a condizer. Um mix para deixar aqui a criança contente. 
[O pelourinho em Aguiar da Beira]

Depois veio o caminho para a Guarda, propriamente. O GPS teimava em mandar-me para uma SCUT (foi insultado de cada vez que dizia “vire à direita”). Finalmente tive de aceder. As indicações das placas indicavam Celorico, que era para norte, e eu queria ir para Sul. Cinco quilómetros depois estava eu já na N16, se não me engano. E aqui tive o primeiro impacto. De um lado, a encosta da montanha. Do outro um vale, seguido de outra encosta. Ia parando e fotografando, completamente satisfeito por ter decidido fazer esta viagem, mesmo sozinho. A 4 km da Guarda parei num pequeno miradouro. E tive de partilhar o momento. Liguei à Nuna, só para dizer onde estava e mandar uma fotografia do que estava a ver: uma pequena aldeia, com um raio de sol que cortava as nuvens a incidir por cima. O resto dos 4 km foi sempre em curva e contracurva. Como o tempo estava melhorzito, deu para puxar um pouco mais pela moto. E eu estava com um sorriso gigante.









[a 4 km da Guarda. o silêncio e as curvas dominavam]

Das paragens que fui fazendo neste dia, destaca-se o silêncio. Ensurdecedor. É impressionante perceber que nunca temos silêncio VERDADEIRO na cidade. 

Chegado à Guarda, procurei o Parque de Campismo. Check-in feito e ia montar a tenda. E logo um casal que estava ao meu lado se prontificou a ajudar. “Obrigado, mas não é preciso”, disse eu. “Tenho de fazer isto sozinho nos próximos dias. É melhor habituar-me já.”

[Casa montada na Guarda]

Saí para jantar. Fui a um restaurante chamado Marisqueira do Caçador. Nome estranho? Sem dúvida. Havia quem lá estivesse para comer marisco. E quem fosse pela carne. Fui pela segunda. E hei-de lá voltar.

Depois foi fazer os 800 metros para o parque (a pé, claro) e dormir. Havia outro percurso para fazer.

Até amanhã!


Dia 10 de junho
Guarda - Covilhã - Fundão - Castelo Branco - Nisa - Portalegre - Elvas
“Merda, que me enganei. Ou não. Espera, não. Porra, é mesmo por aqui”

O amanhecer na Guarda não foi fácil. Um nevoeiro de inverno, fechado e muito húmido. Desarmar a tenda foi um desafio. Não consegui pôr o “telhado” no saco. Azar, arranjei um saco plástico e enfiei aquilo lá para dentro. O objetivo era passar em Castelo Branco e acabar em Elvas. Assim, sem espinhas. Estava frio na Guarda. Seriam uns 8 graus. Em conjunto com o nevoeiro, obrigaram-me a vestir o forro e apertar bem todos os velcros do casaco. À medida que me afastava da Guarda, o tempo ia melhorando. A estrada acompanhava. Curvas e curvas para me deitar à vontade (já me tinha habituado ao peso extra das malas). Estava tão entretido que nem cheguei a fotografar nada. Só queria mesmo fazer caminho.

Quando as curvas acabaram parei para um pouco de chocolate e água. Já tinha andado uma hora seguida (sem reparar nisso). A Josefa posou para a foto, mesmo junto à estrada, com o seu melhor sorriso. Fui andando com Castelo Branco apontado no GPS. A estrada tornou-se uma seca. “Então as retas não eram só no alentejo?”, pensei eu. E assim foi até à Covilhã. Nem me lembrava que era a cidade que me ia aparecer pelo caminho... subi ao centro para uma fotografia e café. 






E voltei à estrada. Reparei que ia passar no Fundão. Uma sorte gigante porque era a festa da cereja. Um azar ainda maior porque não tinha espaço para trazer uma caixa comigo. Optei por continuar. Mas o raio do GPS estava a querer que fosse para a AE. Outra vez??? Felizmente pedi a um senhor que ia a passar de scooter qual o caminho para Castelo Branco sem ser pela AE: “Venha atrás de mim”. Lá fui eu. Uma 650 carregada com malas atrás de uma 125 até a uma grande rotunda, com a indicação “Castelo Branco” N16. Lindo, pensei. Agora é que vai ser. E foi. Uma estrada que acompanhava a A23, se não me engano. Bom piso, curvas rápidas. Melhor seria se não tivesse aparecido um camião... lá fui eu a 60 km/h...

[O sr. de scooter que me levou à Nacional. O GPS insistia na SCUT.]

Era hora de almoçar. Como estava em Castelo Branco, procurei um sítio onde ir. Fui dar com um chamado “A tasquinha”. Quem me conhece sabe que um nome assim é chamar-me para comer. Paro a moto, saio e tal. E eis que um senhor vem ao meu encontro. Quase não percebia o que ele dizia. Mas era algo parecido com “aqui não se come, venha comigo”. E lá fui atrás de um senhor na casa dos 70, com muita dificuldade em andar. 15 minutos depois chegámos ao tal sítio que ele dizia que era bom. Era um café que tinham como “grande-prato-chamariz” Prego no prato. Disse ao meu guia que ia buscar a moto e levantar dinheiro e que aparecia num instante. Claro que nunca mais me viu. Voltei à “Tasquinha”. Portas tipo saloon. “Fabuloso, está mesmo a chamar por mim”. Entrei e pedi uma sandes de queijo curado e chourição. E ouvia os clientes a comentarem a cerimónia do a dez de junho em Elvas. “Olha, o Zé das medalhas deve ter feito algum. O PR está farto de as pôr”. Ri-me e fui comentando com eles. Saí com um “Até sempre” e voltei à estrada. 

[com este nome tinha mesmo de entrar]

Era para Elvas, se faz favor. Eu queria passar em Nisa. Foi uma das melhores decisões do dia. Dei comigo a descer uma estrada com 8% de inclinação, numa sucessão de curvas bem porreiras. Até que dei com o Tejo de frente. Foi avassalador. Mesmo. É gigante, o raio do rio. Mais à frente eram as portas de Ródão. Tentei fotografar com a Gopro. E segui. Não queria chega tarde a Elvas. O Tiago vinha de Lisboa para jantar e ficar para o percurso do outro dia.

[a primeira passagem sobre o Tejo]

Depois de passar sobre o Tejo, a estrada começou a endireitar-se. Demais. Lá vieram uns quilómetros de retas, que me estavam a deprimir. Vejo o outdoor “Bem-vindos ao Alentejo”. “Bem, mais retas, pensei eu”. Mal. Esta placa deu início a uma montanha russa de curvas. Mais uma vez, todo eu era felicidade na estrada. Curva, contracurva, terceira, quarta, terceira, segunda, terceira, quarta a fundo! 
E Nisa aparecia. E desapareciam as curvas. Chegavam as never ending retas do alentejo. Ia um pouco mais depressa que o normal. Tão depressa que falhei a saída para Castelo de Vide. Por causa disso fui obrigado a ir pelo IP2 e as suas retas e velocidade acima de 90. 

[já em Nisa, depois da diversão das curvas]


Saí em Portalegre, com o GPS a dizer “anda cá menino, tens de vir para o IP2”. Perguntei a um taxista, pelo melhor caminho sem ter de ir pelo IP2. “Vá até Arronches e depois siga as indicações de Elvas”. Em boa hora o fiz. Outra vez curvinhas para me divertir. Até começar a ver o aqueduto de Elvas. Porra, é mesmo GRANDE, pensei. Parei para tirar fotos... estava sem bateria, tanto na Gopro como na outra. Grande merda, pensei... Pronto, vamos lá para o parque. Montei a tenda, liguei ao Tiago. “Pá, estou na área de serviço, faltam cem quilómetros... uma hora e estou aí.” 

Aproveitei para descobrir onde era o Continente. Queria comprar mantimentos para o jantar. O Tiago ia trazer umas iguarias para comer. Eu ia tratar das bebidas. E aqui começa a Odisseia. 320 rotundas depois, 200 perguntas pelo meio e consegui encontrar o raio do Continente. E uma saída de 15 minutos transformou-se numa saga de quase uma hora!!! Entretanto o Tiago já tinha chegado. Sentámo-nos nas mesas de merendas do parque e pumba: queijinho, chouriço assado em bagaço, pão alentejano, azeitonas, cerveja. 


[o jantar fabuloso, providenciado pelo Tiago]

Depois uma saída a pé para “desbulhar” o jantar. E lá foram 5 km a andar. Valeu a pena porque deu para ouvir “Smoke on the water” tocado pela banda do exército (que lá estava por causa da celebração do dez de junho. Aliás, estava a banda, helicópteros, um F-16, vários veículos anfíbios e um tanque).
Tudo muito bonito e tal, mas já era tarde. Regresso ao parque e boas noites e tal.



[o aqueduto de Elvas]

O segundo dia em frames.




11 de junho
Elvas - Monsaraz - Mourão - Moura - Castro Verde
“Isto não curva nunca?”

Este foi, decididamente, o dia com mais retas. Foi também o dia com uma surpresa. Mas mais à frente falo disso. Este foi o único dia que não fiz a solo. O Tiago veio de Lisboa ter comigo. Passámos a noite em Elvas e íamos rumar até Castro Verde. Antes de sairmos, fomos tirar a foto frente ao aqueduto. Uma obra que "arrepia" de tão emblemática e imponente. 

[as motos alinhadas, já na fase de desmontar a tenda]

[a foto frente ao aqueduto]


O primeiro ponto de passagem era Mourão. Este dia era especial porque, um ano depois da N2, ia fazer estrada com o Tiago e a sua Delfina.
A saída de Elvas teve algumas curvas. Ótimas para começar bem o dia. Depois vieram as retas em estrada nacional. O Tiago ia ultrapassando para dar mais ritmo (eu gosto da velocidade caracol, confesso). A certa altura, ele ultrapassa-me e faz sinal para virar à esquerda. "Temos de ir a Monsaraz. É aqui perto e vale a pena". "Tiago, lead the way. Eu quero é aproveitar." E lá fomos. Uma estrada que cortava campos onde vacas e ovelhas pastavam. Fomos andando até chegar a Monsaraz. Subimos ao castelo, obviamente. E foi fabuloso. Pela vista de oliveiras e mais oliveiras e do mar do Guadiana. Para mim, este foi a grande surpresa do dia. Nunca pensei ver tanta água em pleno Alentejo. Ficámos meia hora dentro do Castelo. Ainda deu para nos refrescarmos (o calor era muito) e tirar algumas fotos lá dentro.

[a chegada ao Castelo de Monsaraz]










Visto o Castelo e fotografias tiradas, era hora de ir até Mourão. O caminho foi em grande parte feito sobre o Guadiana, com um conjunto de pontes, onde se viam os antigos olivais submersos pela água da albufeira. Eu fartei-me de fotografar em andamento. Ora um lado, ora outro...

E chegámos a Mourão. Eram cerca de 2 da tarde. Como a fome apertava, decidimos entrar num pequeno restaurante, o Páteo do Castelo. Escolhi uma sopa de tomate com bacalhau, ovo escalfado e ovas. Fui incapaz de comer tudo. Era muito e com um sabor fabuloso. Isto com uma cerveja, sobremesa e café ficou por 10 euros. Lindo.

Moura era o ponto de passagem seguinte. E voltavam as retas... parámos para hidratar. E voltar à estrada. Retas. Muitas, intermináveis, cansativas... até Castro Verde. Eu acho que isto aconteceu, em parte, porque me enganei a certa altura (segundo o Tiago) e entrei no IP2. E seguimos. O Tiago ultrapassava-me para dar mais ritmo. Íamos a mais de 90 km/h e eu dei comigo a pensar "lá se vão as médias abaixo dos 5 l/100 km"... e continuámos no mesmo: retas, retas, retas, retas até Castro Verde.

Praça Central, a mini do fim do dia e esticar as pernas à sombra, quase uma hora nisto, enquanto o Tiago fazia contas se ia de madrugada para Lisboa ou arrancava daí a pouco. Decidido, lá arrancou para Lisboa. E voltei a ficar em modo solo ride outra vez. 
Eu fui para o Parque de Campismo. Check-in feito. Uma tenda, uma moto e uma pessoa. "E sombras, tem?" A senhora torce o nariz e diz "Temos aqueles sítios ali mais abaixo, com aquelas tiras verdes, está a ver? Ali tem alguma sombra".
Inspeciono o local. Terreno duro, com muitas pedras pequenas. Volto à receção. "Desculpe, em vez da tenda, fico no bungalow. O Alentejo tem muitas retas. E elas cansam mais que as curvas."
Eu estava mesmo estafado. Demasiado tempo na mesma posição em cima da moto, sem curvas para eu descansar um pouco..
O bungalow era enorme! Supostamente era para duas pessoas, mas cabiam 4 à vontade. Transferi tudo da moto para o interior. Aproveitei para lavar umas coisas e aceder à net (que devia ser do tempo dos modem). Banho tomado e lá fui eu à procura de sítio para jantar. 
[a Josefa a descansar frente ao bungalow]
Como em todos os sítios por onde passei e parei, evitava comer fast-food ou algo que fosse próximo disso. Fui ao restaurante "Planície", no largo da Feira, ali mesmo junto ao moinho. Um dos pratos que tinha era o cozido de grão, com enchidos de porco e carne do mesmo. E o twist era mesmo a folha de hortelã, que dava um sabor único ao prato. Antes do cozido, ainda comi as azeitoninhas, o pão alentejano. Tudo regado com um vinho tinto da casa. Resultado: 7,5€. Bem bom!
Enquanto jantava ainda deu para me rir com um dois senhores, da mesa ao lado, que conversavam sobre a internet. "Basta ires ao gugle para encontrares gajas boas! Só tens de escrever isso e aparecem logo muitas para ver! E tudo de graça!"

Ri-me, paguei e fiz a caminhada de volta ao parque. E dormi.


12 de junho
Castro Verde - Monchique - Sagres - Aljezur - Zambujeira do Mar
“É desta que vou beijar o asfalto”

Estava à espera deste dia. Que me lembre, nunca tinha ido a Sagres. E, não sei porquê, a ideia de lá ir estava a ganhar forma e espaço na minha cabeça. 
Acordei e vim à janela. O tempo estava encoberto. "Fixe", pensei eu, "não vou ter o calor infernal de ontem".
Fui comprar o pequeno almoço e voltei. Comi e comecei a preparar a moto para a viagem. De repente estava calor, outra vez.
Apontei para Monchique. Queria fazer algumas curvas para tornar a viagem mais interessante. E assim foi. Sempre a curtir curvas e paisagens engraçadas. A meio ainda parei numa aldeia no meio de nenhures. Aproveitei para descansar. Acho que me fartei de tirar fotos nesta parte do caminho.

[o moinho de Castro Verde]

Cheguei a Monchique e nitidamente o sorriso tinha voltado aos meus lábios. As curvas serviram para esquecer as retas intermináveis do dia anterior. Aproveitei para beber mais água e descansar numa sombra. Meia hora depois já tinha "baixado a temperatura" e estava pronto para a estrada. 

[descanso em Monchique. o calor já apertava]
Descer a serra foi tão bom como lá chegar. Agora estava a caminho de Sagres. O caminho estava carregado de ninhos de cegonhas. E tudo corria bem. Até chegar à N125. Ainda foram alguns quilómetros, com muitas zonas a 50 km/h e a pressa dos outros condutores em ultrapassar-me. 

Finalmente via Sagres. Não fosse o vento insuportável de Lagos até lá e eu tinha curtido mais as curvitas que foram aparecendo. Em Sagres tirei a foto obrigatória junto ao forte de S. Vicente. E no cabo com o mesmo nome. Aproveitei que estava muito vento para me deitar e baixar a temperatura (o sol não aquecia com a ventania).






Fui até a um barzito comer uma tosta mista com tomate. Fabuloso! Descansei mais um pouco e decidi subir a costa vicentina. Queria dormir em Aljezur. Mas o vento na estrada era insuportável. Que me lembre, nunca tinha circulado com tanto vento. E por isso não conseguia ir a mais de 70 km/h. E a lutar para manter a moto em pé. A meio do caminho apareceu um parque eólico, onde parei para a foto com as turbinas de vento em fundo. 


De volta à estrada, as retas já eram menos e o vento diminuía à medida que as curvas apareciam. Mas nesta altura tive frio. Ia sem o forro do casaco e ao longe viam-se umas nuvens negras no céu. "Mau", pensei eu, "tu queres ver que vou ter de acampar com chuva?" 
Parei em Aljezur para me refrescar. Como as nuvens pareciam pairar aí, decidi continuar a andar. O caminho já tinha mais curvas e a temperatura parecia aumentar, à medida que continuava para norte. Foi a melhor decisão que poderia ter tomado. E fui andando. Parei na Zambujeira do Mar. Sabia que tinha Parque de Campismo e eu gostava daquela terrinha.
Check-in, montar a tenda (como o terreno era arenoso, tinha a certeza que nessa noite haveria colchão), banho e partida até à beira mar.

Sentei-me numa esplanada. Era a altura em que o pôr-do-sol acontecia. E foi fabuloso ver para aí 20 pessoas, na pequena capela que existe junto ao mar a apreciar o momento. Impagável.



Jantei e voltei ao Parque. Tinha de carregar baterias, pilhas e o que mais houvesse. O dia seguinte seria em direção a Troia, com passagem no ferry, e final em Alenquer.

Depois daquele pôr do sol maravilhoso, ainda havia mais. Recebi um telefonema de um amigo que me deixou verdadeiramente feliz. Tinha arranjado trabalho. Num sítio de sonho!.

O quarto dia em frames.



13 de junho
Zambujeira - Vila Nova de Mil Fontes - Porto Covo - Comporta - Troia - Ferry - Alenquer - Cartaxo - Fátima
Um dia hiper-cansativo

Saí da Zambujeira. O objetivo era Alenquer, onde ia passar a noite. 
Pés ao caminho e lá fui eu. Saí da Zambujeira. O primeiro objetivo era chegar a Troia e fazer a passagem de ferry até Setúbal. Daí ia até Alenquer. Uma viagem tranquila, pensava eu... ou não.

Depois da Zambujeira, aproveitei para ver Vila Nova de Mil Fontes, porque não me lembrava de ter lá ido. Mais uma vez, o vento insistiu em atrapalhar a condução. Cheguei e tirei uma ou outra fotografia. O caminho não era dos melhores (outra vez as retas e retas).


Saí e fui até Porto Covo. Mais umas fotos e uma voltita pela vila. Depois Comporta, para ficar uns minutos fora da moto, a apreciar o sol. Por esta altura já o vento tinha diminuído um bocado. Mesmo a tempo de estar na praia a apreciar um pouco de sol.








Não fora o material de andar de moto e estaria bem mais confortável. Mas lá está, o que tem de ser tem muita força... Depois de 5 minutos em estradão, estava de novo com o GPS apontado a Troia. Ia dizer adeus ao Alentejo e entrar em zonas mais povoadas. A confusão na estrada estava próxima... 

A passagem de ferry é sempre engraçada. Moto parada, com o GPS a indicar caminho em cima de água. 15 minutos sem ter de conduzir a e avançar no percurso do dia. Cheguei a Setúbal e apontei para Alenquer. 


A viagem até Alenquer foi uma verdadeira seca. Uma estrada em reta de 15 km, com muitos, mas mesmo muitos camiões a passarem, uma mulher completamente atrasada mental a ultrapassar numa contínua, que quase punha fim à minha viagem... foi assim até perto de Vila Franca de Xira. A partir daí entre na nacional 1. Tal como esperava, chegou o trânsito de camiões, o para-arranca, os semáforos... a altura certa para o cansaço começar a dar sinal. 

Cheguei a Alenquer. As esperanças de a cidade ser bonita ou ter alguma coisa atrativa eram poucas ou nenhumas. Fui surpreendido. Não sei por que razão, gostei daquela encosta com casas baixas e o “ar de campo” tão perto de Lisboa. Fui encontrar o parque de campismo. Entrei. Fui à receção. Porta fechada. Fui ao bar do parque. Porta fechada. Estava quase a sair quando apareceu uma pessoa, supostamente responsável pelo parque. Eu não sou de avaliar pela cara, mas aquela mulher (na casa dos 30) tinha mesmo muito mau aspeto (“deve ter deixado a heroína há muito pouco” pensei). Fiz uma pergunta descabida, agradeci a informação e saí dali. 

Parei num café de beira de estrada. Eram 4 da tarde e estava com alguma fome. Pedi uma bifana (muito boa) e sentei-me na esplanada. Meti conversa com os senhores que lá estavam, fiz perguntas sobre o parque (eles torceram o nariz e desaconselharam-me a lá ficar). “Vá para Santa Cruz. Aproveita a estrada (era a nacional 9, que no sítio onde passei anunciava 11 km de curvas!!!) e dorme em lá. Até tem vida noturna”. Hesitei. A ideia de fazer aquele bocado da estrada estava quase, quase a levar-me para a costa. Mas não queria fazer isso, até porque depois tinha de vir para o interior. Queria mesmo passar em Fátima.

Procurei parques e dei com um em Alpiarça. Hmm... fica junto ao Tejo e pode ser que a estrada até lá seja engraçada. Telefonei para o parque, só para ver se tinham lugares, como era, o preço, etc. ninguém atendia. 3 vezes liguei, três vezes foi parar ao voice mail. Pensei, “que se lixe, arranco e mais daqui a bocado volto a telefonar.” Lá fui eu. Desta vez a estrada era bem mais engraçada. Muitas curvas, verde, lezírias... muito, muito engraçado.

Eu estava a ficar um pouco cansado, mas aquelas curvas eram o que precisava para acordar. A certa altura tive de parar para ligar a tomada do GPS. Aproveitei para insistir com o parque de campismo. Nada. Mais uma vez, só podia falar com o voice mail. “Vou até ao Cartaxo e volto a telefonar”. E lá fui. Boas curvas, aldeias muito engraçadas e paisagem interessante. 

E cheguei ao Cartaxo. Volto a ligar para Alpiarça e só a senhora da PT falava comigo. “Bem, vou ter de mudar de planos. Vou até Fátima.” Telefonei ao Jorge para o avisar que chegava um dia mais cedo. “Aparece, estou à tua espera!”, respondeu ele. 

Ia eu à mala beber uma água... “a chave??? Não sei da chave da mala. Merda, foda-se, perdi a p*ta da chave.” Aqui caiu-me tudo. Numa viagem que estava a correr lindamente, fico sem a chave de uma das malas. Uma delas tinha ficado sem estar trancada. “Porra, deixei a chave e ela caiu. Que merda”. Arranjei um bocado de arame para prender a mala que estava destrancada e segui para Fátima. E aqui agradeci ter perdido a chave. Para chegar a Fátima, vim por uma estrada carregada de curvas. Fez-me lembrar uma parte da Nacional 2, que fiz o ano passado. Eram curvas sucessivas, em subida. A certa altura percebi que estava na serra de Aire e Candeeiros. Foi quando olhei para o lado e vi a A1.

Cheguei a Minde, uma pequena freguesia a 10 km de Fátima. E a partir daí foi mesmo continuar a curtir. Estradas abertas, com muitas curvas. Um regalo para quem já andava há dois dias praticamente em reta.
E cheguei a casa do Jorge. 

Foi um dia muito cansativo, com o episódio da chave a deixar-me furioso. 
Mas que acabou bem.


14 de junho
Fátima - Chancelaria - Torres Novas - Tancos - Constância - Abrantes - Vila de Rei - Ferreira do Zêzere - Tomar - Ourém - Fátima
“Faz-me um roteiro com curvas. Estou farto de retas.”

Neste dia tinha de "decidir a minha vida". Ou rumava a norte (e dormiria em Góis) ou ficava mais um dia em Fátima e partia no outro dia. Em 3 minutos decidi que ia ficar. Pedi ao Jorge para me traçar um caminho para esse dia. "Quero fazer muitas curvas". Ele escreveu num papel.

Como ia voltar a dormir em Fátima, tirei as malas da moto. Tinha de ser. Assim ia curtir mais a estrada. Este foi o dia em que tirei menos fotografias com a máquina. Pus a Gopro a fotografar e eu iria apenas e só curtir estrada.
E assim foi. A primeira parte do caminho, até Torres Novas, foi feita a abrir (até aparecer um camião). Curvas abertas e a descer, com árvores dos dois lados. E eu a sorrir.

Em Torres Novas parei na praça 5 de outubro para a foto e presença. Depois ia em direção a Constância. O Jorge tinha-me avisado para ir até ao Castelo de Almourol. Não era a melhor coisa do mundo, mas valia a pena pela construção estar rodeada de água. E lá fui. 

Sempre a acompanhar o Tejo (um trajeto previsto nos meus planos) fui andando em direção ao interior. Ao entrar em Constância (se não me engano) vi que existia uma pequena estrada a acompanhar o rio. Aproveite para fazer 15 minutos nesse percurso, com campos dos dois lados e o rio mais abaixo. Depois ia até Abrantes. Mais uma vez as curvas apareceram. Confesso que nem olhei muito para a paisagem. Como era dia de descanso, apenas me "concentrei" em curvar, acelerar, reduzir, passar de caixa, voltar a acelerar. A Gopro grava, pensava eu.

Como estava a 20 km de Vila de Rei, pensei em dar um salto (outra vez) ao Centro Geodésico de Portugal. E lá fui. 20 km "a abrir" (estrada larga, com algumas retas) até lá. E parei para mais umas fotos da praxe. 
Depois Ferreira do Zêzere, a curtir curvas. Aliás, depois desta viagem fiquei a adorar a sinalização de curvas em Portugal. Significa diversão. :)
Em Ferreira almocei uma morcela de arroz e migas. Foi o almoço mais "pesado" de toda a viagem. Tão pesado que, quando cheguei a Tomar, deitei-me no parque do Convento de Cristo para dormir. Uma hora. Sim, uma hora a dormitar à sombra de uma azinheira. 

Daí parti para Ourém. Parei para comprar tabaco antes de me voltar a fazer à estrada. De Ourém a Fátima foi inacreditável. Tinha duas escolhas: uma estrada com uma inclinação de 8% e a outra estrada. Como não sabia, fui por onde o GPS me indicava. E apareceu um parque de diversões a sério, recheado de curvas inclinadas. A estrada foi tão boa que consegui, em meia dúzia de quilómetros, tirar grande parte do óleo da corrente.

(Publico o vídeo deste dia quando o Youtube se "lembrar de processar todos os vídeos")


Dia 15 de junho
Fátima - Anadia - Porto
“Foda-se, que estes gajos não respeitam sequer as duplas contínuas”

Era o dia da ressaca. Não há história para contar, exceto a sandes de leitão a meio do caminho e os condutores que insistiam em ultrapassar em dupla contínua. 
E cheguei a casa.

[a quilometragem final]

Balanço
Esta voltita por Portugal foi fabulosa. Confesso que, no início, a ideia de fazer os quase dois mil quilómetros sozinho me assustavam. "E se cair? E se a moto avariar? E se? E se? E se?". A ideia era ainda mais assustadora para as pessoas que estavam perto de mim. Namorada, família, amigos tinham os mesmos receios que eu, multiplicados pelo facto de não saberem onde estaria “em tempo real”.

Mas a melhor decisão que tomei foi mesmo fazer-me à estrada. Consegui ver sítios onde nunca tinha estado, fazer uma das coisas que me dá mais prazer - andar de moto.

Uma viagem que serviu também para pôr à prova as minhas capacidades de montar e desmontar uma tenda sozinho e de conversar comigo.
Mais uma que vai ficar como referência. Até fazer a próxima viagem.

7.6.13

t minus 2


Bem, já só faltam dois dias. A verdade é que estou um pouco ansioso por arrancar. Por ser a primeira vez que me atiro a fazer uma viagem a solo tão grande (quase 2.000 km no total). Por saber que vou descobrir um pouco mais de Portugal. Por ter a certeza que vou gostar destes dias. 

Vão ser uma espécie de terapia. Vou ter tempo para escrever, fotografar e comer. Tudo ao meu ritmo (e isso está a cativar muito).

Mas até lá ainda tenho a ida às 40 horas de Serralves (este ano, em vez das 23 que fiz o ano passado, vão ser só umas 12) e um mega jantar.

Domingo, logo pela fresca, ligo o motor.

29.11.12

Nacional 2 com amigos - pt.4


Dia 3.
E lá vamos até Faro.
Acordámos, mais uma vez, depois das dez. Pequeno-almoço alentejano, motas com a tralha e siga outra vez, que havia o Caldeirão para fazer.
Mas até lá eram retas. Outra vez o raio das retas. Parámos em Almodóvar, se não em engano para carregar energias. Este foi o dia em que menos fotografias do caminho tirámos. Até porque era tudo igual.
E chegámos ao Caldeirão. A máquina voltou a ficar arrumada, porque tantas curvas pediam que a caixa de velocidades estivesse sempre a mexer.
Só parámos a meio para um cigarro e apreciar a vista.
E siga para Faro, que era dia de jogo de Portugal. A chegada a Faro foi engraçada. Eu com o último km da N2 apontado... mas não o encontrámos. Acabámos por parar num café a pedir informações. Era um clã motard, os highlanders. Foram tão porreiros que nos pagaram uma cerveja, deram-nos indicações sobre onde comer, etc, etc. Valeu mesmo a pena não encontrar o último quilómetro.
E depois foi pousar motos, apreciar a piscina, jantar, uns copitos e dormir.


Dia 4.
Faro-Tróia-Lisboa
Queríamos passar com as motas em Tróia. Era algo que o Tiago queria fazer e nós achámos que podia ser engraçado. Mas até lá tínhamos caminho para fazer. Como optámos por almoçar com a família do Tiago, saímos tarde do Algarve. E decidimos fazer a serra de Monchique.
O caminho foi muito engraçado. Mas cansativo. Estava muito calor, a estrada tinha o piso em pior estado que o desejável.
E continuamos a andar. Estrada, estrada, estrada até chegarmos a Tróia, que foi a hora tardia... Lá esperámos pelo ferry e pumba!
Estávamos na margem norte do Tejo. Aqui despedimo-nos. O Tiago e o Eduardo foram para o Seixal. Eu segui para Lisboa. Ainda havia
muito Santo António e churrasco para gozar.

Desta viagem há a referir: o bacalhau que comemos em Penacova, num restaurante chamado “O Cota”, se não estou em erro. As migas em Montemor, extremamente bem regadas e acompanhadas de outras tantas iguarias locais.
Do vinho, penso que ninguém tem a certeza se o bebeu.

28.11.12

Nacional 2 com amigos - pt.3

Viagem - dia 2
Acordámos. Eu e o Rui tínhamos partilhado o quarto virado para a rua. O Eduardo e o Tiago ficaram virados para outro lado. 
Abro a janela e desato a rir. Havia algum movimento no meio daquela vila. Aliás, tanto movimento que as motas arapalhavam o acesso das senhoras à CGD. Pequeno almoço, café e tornar a carregar as motas. 
Continámos a curtir a estrada e as paisagens. É impressionante como este país é mesmo bonito. Decidimos parar em Góis. Eu tinha lá ido uma vez a uma concentração. Achei bonito, mas atestado de motos e gente perde alguma piada. Lá estivemos meia horinha e saímos para encontrar uma aldeia de Xisto que o Tiago tinha ido-há-não-sei-quanto-tempo-mas-que-pensava-que-era-do-outro-lado. Perguntei. E foram 3 minutos da minha vida que nunca mais voltam. O transeunte tinha sido taxista. E esteve a explicar tudo de modo tão pormenorizado que desistimos de lá ir. A paragem seguinte foi numa "estação de serviço". Uma das fotos mais engraçadas que temos é de lá, todos em estilo motherfuckers.
Depois vieram as curvas da Lousã. Curvas a descer, rápidas, com árvores de todos os lados e um piso em bom estado.
Vila de Rei foi a seguir. É o centro geodésico de Portugal. Eu fiquei sem palavras. Durante 5 minutos, limitei-me  a olhar tudo em volta. Só. 
Este dia estava a correr muito bem. A estrada era mais rápida que a do primeiro dia, as curvas mais engraçadas. Estávamos num bom ritmo. Mas era o dia em que íamos ficar com menos um. O Rui tinha um trabalho no Porto e só ia até ao Sardoal, um pouco mais abaixo. Nós continuamos. Montemor-o-Novo era o objetivo.
Depois do Rui entrar na AE a camino do Porto, comecei a sentir a mota estranha. Não sei porquê mas, de repente, fui abaixo. Parecia que não queria fazer mais caminho. Estava mesmo assustado comigo. Perguntámos por um mecânico. Parecia que a corrente estava a ficar com muita folga (e tinha sido ajustada há 300 km, ou coisa parecida). O homem lá esticou a corrente e garantiu-me que estava tudo bem.
Um Red Bull e eu despertei. E entrámos na zona dos arrozais, passámos o Tejo. A paisagem mudava. Aliás, a seguir aos arrozais o caminho começou a ficar secante. Era, definitivamente, o Alentejo. Retas, retas, retas, retas, retas... até que começámos a ver água. Ui! Albufeira da barragem de Montargil! Ui!, tem aqui um sítio para pararmos! "Para, para!", teria dito o Tiago dentro do capacete. Paramos, claro.
Motas junto à água, deitamo-nos nas sombras das montadas para descansar de tanta reta. Devemos ter ficado mais de meia hora. Depois seguimos para Montemor-o-Novo.
Chegámos relativamente cedo. Ainda não eram nove da noite. O sítio onde ficámos era uma casa de hóspedes (conceito que desconhecia). A receber-nos estava uma senhora dos seus 70 anos. "Olá! Olhem, eu ia por-vos na parte da frente, mas estão cá os meus netinhos. E como sei que eles fazem barulho, vocês vão ficar na parte de trás, pode ser?" Como éramos 3, ficámos todos no mesmo quarto. Simples, asseado e a nossa mestre de cerimónias tinha sido mesmo muito simpática e atenciosa. Saímos para jantar um pouco para o tarde. Deviam ser quase dez. Restaurante abertos a fazerem comida... muito poucos. Descobrimos um bar/restaurante. "Bem, vamos lá ver." E comemos e bebemos (muito) bem. Era para aí uma da manhã. "Vamos dormir".

Nacional 2 com amigos - pt.2



Viagem - dia 0
Foi no dia 5 de junho que nos encontrámos. Chovia, daquela chuva miudinha chata que atrapalha mais do que um dilúvio. Estávamos com algum receio que o caminho até Chaves fosse sempre assim. Andar com os impermeáveis é uma seca. E a condução é mais contida. Temos de estar sempre atentos ao óleo na estrada, limpar viseira, lidar com o desconforto das luvas molhadas... 

Partimos. Autoestrada (A3) até Braga, Nacional 103 até Chaves.
A primeira paragem foi nas Cerdeirinhas, perto de Vieira do Minho. Era um pequeno café e estávamos depois da hora de almoço. Acercaram-se de nós. Não deve ser todos os dias que 4 marmanjos param frente ao café, pedem água, fumam e conversam ao telefone. Aproveitámos que já não chovia para colar os autocolantes. 
Depois discutimos se iríamos despir os impermeáveis. Como estávamos de férias, arriscámos. Toca a tirar impermeáveis e ver no que dava.

Motas em andamento. Fomos parando pelo caminho para fotografar o que ia aparecendo. Vistas da albufeira do Gerês, barragens, etc, etc, etc.

Chegámos a Chaves de tarde, depois da hora de almoço. Descarregámos as motas (alguns demoraram muuuuuito tempo a fazê-lo). 'Bora para a vila beber um finito e conhecer isto. 
Logo à entrada perguntámos onde podíamos comer bem e barato. Indicaram-nos o beijinho doce. Gostámos do nome, não entrámos para comer. Sentámo-nos numa esplanada e decidimos ir à Adega Faustino. Fama a mais para o que se come... vale pelo sítio.
Regresso ao hotel, beijinhos e abraços e até amanhã


Viagem - dia 1

Combinámos que não íamos ter hora para sair. À medida que acordássemos, tomávamos o pequeno almoço, prepravámos as motas, etc.
Era o início da Viagem. Motas atestadas de tralha e partimos. Primeira paragem: km 0. Tinha de ser. A partir daqui era o GPS que nos guiava e a memória que eu tinha de novembro. Eu era o cabeça da viagem, depois o Eduardo, Tiago e o Rui a fechar.
A primeira paragem seria a Régua, para almoço. Era um trajeto curto ficaríamos com um terço do percurso para o dia cumprido. E assim foi. Curva e contracurva e lá fomos descendo. Esta parte da estrada era meio para o "técnica". Eram curvas lentas. Parámos no km 69 para cigarro e fotografia (claro!).
Depois foi seguir até à Régua e arranjar sítio para comer. Comemos bem. Aliás, comemos e bebemos bem. Tão bem que acabámos por arrochar num jardim junto ao restaurante.
Lá acordámos e seguimos. O Tiago passou para a frente. E deu mais ritmo à viagem. Até que encontrámos para darmos a conhecer ao mundo que encontrámos o Colo do Pito. Sim ele existe.
Depois das gargalhadas da praxe, mais caminho.
A paragem seguinte foi em Viseu. Mesmo no centro. Era feriado religioso e chegámos mesmo a tempo de assistir à procissão. Descansámos mais um pouco e tirámos mais fotos. A seguir, tinha como objetivo encontrar o sítio onde a N2 se "enterra" na albufeira da barragem da Aguieira. Procurámos, procurámos, procurámos... NADA. Continuámos o caminho. Penacova era a meta e já estávamos atrasados... às oito e pico lá chegámos. Pensão, arrumar mota e jantar. 
Depois do jantar fomos brindados com chuva. Moderada. Mas era suficiente para nos molharmos. Felizmente já tínhamos decido que as motas ficavam paradas depois de cada dia. Chegámos perto da pensão e estava uma padaria aberta. Sentámo-nos para uma cerveja. Começámos a falar com os donos da padaria. "Aquelas motas são vossas?". "Sim, são!". "Hmmm... sabem que andam praí uns miúdos que andam a roubar motas. Ainda um destes dias um cliente daqui ficou sem a dele. Os putos foram apanhados, a mota apareceu, mas eles andam por aí outra vez. Não querem deixar a mota dentro da pastelaria? Só têm de as tirar antes das 7 da manhã!". "Não, deixe estar. Deve ser tranquilo".
Pagámos a cerveja e as águas e fomos ao quartos. Começámos a falar. "Pá, que achas? Deixamos as motas lá fora? Às tantas era melhor prendê-las a um poste." "Mas eu não trouxe cadeado. Só mesmo o de disco!" "E eu não tenho nada!" "Bem, vamos prender as motas umas às outras. Temos ali aquele passeio gigante. Isto não deve ter assim tanta gente como isso." "Vamos fazer isso". E lá fomos nós pegar nas motas, com as rodas da frente todas juntas. Corrente posta à volta e lá fomos nós dormir.

Nacional 2 com amigos - pt.1

Foi em novembro de 2011 que fiz a viagm pela Nacional 2, de Chaves a Faro. Nessa altura não fiz a estrada toda. Problemas de orientação do GPS de quem comandava a "equipa", uma queda de outro elemento, que obrigou a que "saltássemos" a Serra do Caldeirão.
Mas isso passou e depois do Tiago saber que eu tinha feito a N2, ficou com a pulga atrás da orelha. Começámos a falar sobre fazer a estrada. Mas desa vez teria de ser com calma. O Tiago dizia que não tinha experiência. Isto foi em dezembro. Conversa puxa conversa e o plano foi sendo traçado. Eu comecei a traçar a rota no googlemaps as tiradas diárias, os locais onde dormir, algumas curiosidades para ver pelo caminho...


Mas havia um problema: o GPS. Eu queria navegar por GPS porque, se apanhássemos calor, era chato andar de um lado para o outro a tentar encontrar a rota certa. Devo ter passado cerca de 12 horas, no mínimo, para conseguir arranjar forma de exportar a rota do google maps para o GPS. Mas eu falei em GPS? Mais um problema. Como conseguir levar o GPS? Levava o do carro? Mas não tinha suporte! E os 60 euros de um RAM Mount dão para 800 km de caminho! Cabeça a pensar outra vez. Acabei por chegar a uma solução perfeita. Comprei um suporte de telemóvel, aproveitei o tmn drive e só faltava conseguir exportar os mapas.
Tudo parecia começar a compor-se. O primeiro dia seria do Porto a Chaves. O segundo de Chaves a Penacova. Depois Penacova a Montemor-o-Novo, Montemor a Faro. O regresso seria de Faro até Tróia, onde atravessaríamos o ferry para Setúbal.
Como profissionais de comunicação, decidiu-se dar um nome. 4 the road foi a proposta do Eduardo, logo aceite. Afinal de contas eram 4 rapazes, 4 motas e uma estrada para fazer.
Nota: Eu e o Tiago devemos ter trocado para cima de 20 emails, 60 sms e várias horas de chamada sobre a viagem. Estávamos ansiosos.

Encontrei o GPS visualizer. Exportei KML, converti nesse programa e pumba!
Agora só faltava montar o suporte na mota. Montei-o. Não gostei. Estava abaixo da linha de horizonte. Toca a pensar outra vez. E foi quando encontrei a solução de génio. Um suporte de cortinados. Desmontei o suporte que comprei, apliquei o do cortinados e voilà

Entretanto fomos conversando sobre a viagem. O Tiago defendia que seria melhor se não fossemos só os dois. Arranjar um grupinho. Quatro pessoas no máximo. E foi aí que falámos com o Eduardo, que tinha trabalhado com o Tiago. Alinhou. Faltava mais uma pessoa... E foi dois meses antes que encontrei. O Rui, um amigo de uma amiga que tinha conhecido há pouco tempo. Alinhou.