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29.6.15

Repicos: o regresso aos Picos da Europa. pt_6

14 de junho
Ponferrada - Porto
O dia que ninguém queria.
Fotos de Rui Oliveira

O último dia. Fico sempre stressado com o dia de regresso porque sei que vai acabar a diversão diária, porque vou voltar à rotina, porque queria continuar a descobrir sítios e gritar "WOW" a plenos pulmões dentro do capacete.

Apesar de ser o dia de regresso a casa, queríamos fazer uma última visita turística. Fomos às Médulas, que se revelaram um sítio que impressiona ao olhar. Terra vermelha, em altura e um verde a rodear o vermelho. Muito bonito. 
As Médulas, segundo li, eram uma exploração mineira do tempo dos romanos, que utilizavam a água para desbastar a montanha, e chegar ao ouro.

Como tínhamos pouco tempo, subimos ao miradouro, para apreciar as Médulas de cima e tirar umas fotos. A esta altura ainda estávamos convencidos que íamos almoçar uma posta em Ponte da Barca.

Uma panorâmica das Médulas.

O caminho das Médulas até Ourense foi corrido. Corrido porque pouco parámos, corrido porque a chuva "obrigáva-nos" a seguir sempre caminho, numa tentativa frustrada de fugir dela. Primeiro caiu forte, depois foi parando, mas esteve sempre connosco até à entrada de Ourense. Decidimos que íamos almoçar aqui, até porque já eram 14 horas. Comemos um bocadillo, atualizámos as fotos.

E o céu transforma-se. Escuro, a prometer chuva forte. Ainda faltavam uns quilómetros até chegar a Portugal (não sei porquê, mas achámos que passar a fronteira seria sinónimo de casa, de conforto e de sol). Foi mais ou menos a essa hora que olhámos a fundo para o pneu da moto do Rui… já tinha dado sinais de entrar nas lonas a caminho das Médulas. Mas em Ourense começámos a duvidar (mais eu) da possibilidade de ele conseguir chegar a Portugal.

O pneu da moto do Rui, a saída de Ponferrada.

Saímos de Ourense e seguimos a nacional, com umas curvas bem interessantes, que nos iam levar até Portugal. Chovia. Em alguns pontos chovia muito e estava frio. 

A 40 km da fronteira, mais um tyre alert. Aquilo estava a ficar mesmo mau. Ao ponto de a primeira lona já estar a dar de si. Lembro-me perfeitamente de ver o Rui a tirar bocados da lona. “Medo”, pensei eu.

Conseguimos chegar à fronteira de Portugal. Saltámos, celebrámos. O pneu estava em casa! E como o tempo tinha melhorado, estávamos mais animados. 
Dali foi seguir as curvinhas até Ponte da Barca. Eu a divertir-me, a deitar a moto nas curvas. O Rui nem tanto. Seguia atrás de mim, a segurar a moto, que fugia a cada curva. 

Portugal! Repare-se no pneu da Hornet.

Optámos por seguir a autoestrada até ao Porto, em vez da Nacional até Braga. Confesso que foi a altura da viagem em que rolei com mais tensão. Pensava o que aconteceria se o pneu rebentasse, se chegaria ao Porto… mas não. Passámos Braga, Famalicão, Santo Tirso e, de cada vez que olhava pelo espelho, constatava que o Rui ainda rolava. Devagar, mas rolava.

Quando passámos a portagem da Maia, foi o descarregar. O pneu tinha aguentado e estava em casa.

O que faltou na viagem? Nada. Tivemos de tudo. Frio, chuva, calor e sol. Foi muito bom entrar mais dentro dos Picos da Europa. Gostava de ter ficado mais dias e de ter melhor tempo, para poder mergulhar nos lagos, ou descobrir mais lugarejos no interior. Ficará para a próxima.

26.6.15

Repicos: o regresso aos Picos da Europa. pt_5

13 de junho
Riaño - Ponferrada
Dia de saída dos Picos. O dia que marcava o início do regresso a casa... 

Fotos de Rui Oliveira

Íamos acabar o dia em Ponferrada. Eu tinha feito um percurso em que sabia que teríamos curvas, mas nada nos preparava para a paisagem. 

Sair de Riaño foi fabuloso. Um conjunto de curvas rápidas que nos levaram até à descida da barragem. Depois vieram as retas. Durante uma hora seguimos a 100 km/h, com temperaturas a rondar os dez, doze graus. Eram 11 horas quando parámos para um café para esticar as pernas. Depois seguimos por mais umas retas. Eu achava estranho estar na estrada para Oviedo, que é para norte... até que o GPS manda virar à esquerda... E começaram as curvas. 

O tempo tinha aquecido e rolávamos com 13 graus. Curvas rápidas, no meio de encostas gigantes. Parecia que a estrada tinha sido cavada ali. Até que surge uma subida... 4/5 km em curva e contracurva, com cotovelos... uma loucura e sempre com uma vista bastante agradável e um vale a acompanhar-nos. 
No final da subida havia uma lomba. E do outro lado o sorriso surge na nossa cara. Em fundo via-se uma pequena aldeia e, de vez em quando, a estrada que saía da encosta, só com curvas... o paraíso para quem anda de moto! 

O Rui passou  para a frente. Eu deixei de o ver. E continuei na minha, a curtir cada curva... maravilhoso. 
Até que o Rui está parado num desvio. Perguntou-me se queria ir por ali. "Vamos", respondi. Subimos por uma estrada em mau estado, que tinha um pequeno túnel no cimo. Do outro lado o céu... era o Valle de Abras. Uma aldeia no meio de montanhas, com um lago (?) gigante à frente. Se a paisagem anterior era boa… esta era inesquecível. Parámos para fotos e apreciar o silêncio.

A vista do Barranco de Aronga, onde fica o Valle de Abras.

Continuámos a descer até ao almoço, cerca de 20 km à frente. Dos cotovelos, a estrada alongou-se em muitas curvas rápidas, passando por baixo da AP-6, a autoestrada que leva a Oviedo. Seguimos um grupo de 4 ou 5 espanhóis. E que bem sabia ver as motos à frente a deitarem-se nas curvas.

Depois de almoço começámos a entrar na zona mineira. Faltavam 80 km e todos os sítios por onde passávamos eram escuros, abandonados, feios. Tinham vivido das minas e, com o fecho de grande parte delas devido à crise, as cidades em volta foram definhando.

A acompanhar a linha férrea, perto de Ponferrada.

Decidimos entrar num desses lugares e fomos dar àquele que seria o ponto de encontro, caso a sirene tocasse (talvez por causa das minas, não sei). O curioso deste sítio era o tronco de árvore esculpido que estava à nossa frente, com motivos agrícolas.

Um ponto de encontro, no caso da sirene tocar (talvez por causa das minas, não sei). 

Chegámos pouco depois a Ponferrada. A ideia era fazer check-in e descobrir a cidade. Como o hotel era longe do centro, fomos de moto. Estava um tempo aceitável. Mal entramos no centro, uma chuvada. Parámos as motos num passeio e entrámos num tasco para uma caña. "Tenham cuidado que moto no passeio dá 200€ de multa". Bebemos, esperámos que a chuva passasse. Pegámos nas motos para trocar de sítio, porque eu estava a stressar. Eu vejo indicações para o casco antigo. Ora, sabendo que em Espanha é uma zona agitada, seguimos até lá.

Parámos as motos eram cerca das 18 horas. Sentámo-nos numa esplanada a curtir o sol, beber umas cañas e comer umas bravas, que insistiam em vir com a cerveja. Três cañas depois decidimos dar uma volta. E vimos um sítio com muita gente... Entrámos e pedimos mais duas. Foram acompanhadas por dois mini hamburgueres bem deliciosos. E decidimos dar mais uma volta. O Rui sugeriu entrarmos numa rua. "Aqui vai ser fixe, vais ver". E foi. Mais duas cañas, uns embutidos maravilhosos a acompanhar. Muita conversa, algumas cañas e embutidos serviram de combustível para voltar à realidade. Decidimos que seria melhor irmos dormir, já que teríamos muitos quilómetros pela frente no dia seguinte. Escusado será dizer que esta parte velha estava cheia de gente, com aquele burburinho normal de rua espanhola.




A ver: o Barranco de Aronga. A vista é mesmo bonita. Entrar nas pequenas aldeias junto ao rio Sil (antigas moradas de muitos mineiros). Em Ponferrada vale a pena visitar o Casco Antigo.
Comer: Ponferrada. Não comemos. Fomos comendo. Como é tradição em muitos sítios em Espanha, por cada bebida é oferecida uma tapa. E foi assim que jantámos.

25.6.15

Repicos: o regresso aos Picos da Europa. pt_4

12 de junho
Cangas - Riaño
O dia em que voltaríamos à estrada do Cervo, a montanha russa de curvas e contracurvas.

Fotos de Rui Oliveira

A primeira paragem do dia seria em Potes, o ponto a partir do qual se poderia ir a Fuente Dé. Logo no início da viagem (e sabendo o nevoeiro que estava) decidimos passar Fuente Dé. Não daria para subir o teleférico e ia tirar-nos tempo para descobrir outras aldeias que estavam previstas. 

A chuva fez das dela. Tínhamos feito cerca de 30 km quando ela decidiu aparecer. Parámos, vestimos os impermeáveis e seguimos a estrada. Ao contrário do ano passado, fomos mais devagar. Estávamos a curtir as curvas, mas a fazê-las com mais calma. Em Liebana parámos para almoçar. O Rui embarcou (outra vez) no costume local dos dois pratos. Eu optei por não o fazer, por causa do sono com que fico.
Algures entre Cangas de Onís e Potes. A estrada desce em curva e contracurva. Uma delícia para que anda de moto.

E durante esta pausa a chuva parou. Ainda bem, pensámos. E siga para a estrada do Cervo. Sem chuva e com o piso seco, a diversão apoderou-se de nós. Depois de Potes, o Rui passou para a frente (a moto dele ia menos pesada e - claro está - ele curva bem melhor que eu) e começámos a rotina de "deita a moto para um lado e para o outro" até ao Cervo. Foi maravilhoso: as curvas, a paisagem com nevoeiro que deixa o verde revelar-se. 

Três frames mesmo antes da estrada do Cervo e de todas as curvas. 
Os saltos e a sessão fotográfica foram uma forma de aliviarmos a ansiedade.

Estive em dúvida entre trocar a GS pelo cervo. Mas ele olhou para a GS e disse que ia melhor montado nela. 

A paragem seguinte seria em Posada de Valdeón. Mas antes saímos do trajeto por uma estrada estreita. Até darmos de frente com a escultura do urso (uma homenagem ao urso ibérico). A paisagem deste ponto é (mais uma vez) incrível. A 360º veem-se pequenas aldeias distantes, neve, os picos que se erguem, imponentes.
Uma questão de escala.

A vista desde a estátua do Urso.

Poses feitas mesmo perto da estátua do Urso (não, não é o de óculos escuros).

Metemos conversa com um grupo de ingleses. Já tinham feito 1800 km - nós íamos nos 700 e tal ou 800 e tinham mais dois dias nos Picos. Já se lamentavam pela falta de tempo, mas os olhos deles brilhavam quando falavam na paisagem, na estrada e na comida. 
Tiraram-nos uma das poucas fotos em que aparece toda a “comitiva (eu, Rui e motos) com a paisagem que descrevi em fundo. O destino seguinte era Posada de Valdeón. A estrada era mais avermelhada e em menos bom estado. Mas, como estava seca, continuámos a dança das curvas. 

Mais uma prova de bons autocolantes.

Chegados a Posada, vimos a indicação para Caín. Era mesmo isso. Fomos atrás de um grupo, que "ia abrindo a estrada" estreita e carregada de curvas até Caín. O sítio é muito engraçado. Pequeno, com muita água (outra vez cristalina) a correr e rodeada de picos. Uma espécie de enclave no meio de tanta rocha cinzenta.

Caminho para posada de Valdeón.

Comemos qualquer coisa e descansámos um pouco. E conversámos com aquele grupo - eram do Porto - que ainda ia para Gijón naquele dia (notava-se o cansaço na cara deles). Demos alguns conselhos sobre como seguirem rapidamente para o destino, já que as penduras eram quem mais estava a sofrer. 

Este encontro acaba por ser engraçado por outra razão. O pai do Rui conhece uma das pessoas do grupo. Melhor ainda, essa pessoa viu o Rui crescer. E a forma como eles se aperceberam disto foi ainda mais engraçada. Por acaso, o pai do Rui ligou ao “engenheiro” para perguntar como estava. “Estou bem. Cheguei ontem dos Picos da Europa e estou um pouco cansado”. “Que engraçado, o meu filho esteve lá, também”. “Ai sim? Nós conhecemos dois rapazes do Porto, que até nos ajudaram lá num problema de percurso. Que moto tem o teu filho?”. “Tem uma Hornet”. “A sério? Aquele rapaz era o Rui?”. E pronto. Percebemos mais uma vez que este mundo é minúsculo.

Queríamos fazer a estrada de regresso a Posada de Valdeón. O Rui foi à frente, a abrir caminho. Uma estrada que passava no meio de muitas árvores, retorcida, daquelas estradas que faziam abrir um sorriso.
Com a Posada de Valdeón em fundo, depois de já termos ido a Caín.

Depois de Posada de Valdeón, onde temos algumas fotos incríveis, foi seguir a estrada de montanha, com curvas rápidas e bom piso. E descemos à estrada que liga Riaño e Cangas, e que passa junto ao embalse de Riaño. 20 km de curvas até ao nosso último hotel nos Picos, em Riaño.

A chegada a Riaño. O fim do Repicos.

Chegados a Riaño, demos conta que havia uma espécie de "concentração" de BMW Z3 e Z4. Como eu tinha uma BMW, estacionei mesmo junto ao local reservado para os meninos dos carros da BMW.

Riaño tem um problema: o excesso de falta de restaurantes. Tínhamos o do hotel, mas eu tinha lido que era caro e não era grande coisa…. sendo assim, acabámos por comer um hamburguer num café bem pequeno. Depois disso resolvemos descansar, porque tínhamos visto muita coisa fantástica e precisávamos (eu precisava) de organizar as ideias.



A ver: Os pontos assinalados no mapa. Falta acrescentar Fuente Dé e o seu miradouro, acessível por teleférico. Não visitámos devido ao nevoeiro - seria impossível subir até ao miradouro.
Comer: Em Riaño não há muita escolha. E a que existe é cara. Optámos por um hamburguer junto à bomba de gasolina, que também tem uma das melhores torradas que já comi.
Dormir: Riaño tem poucos sítios onde dormir. Ficámos no sítio mais barato (25 pp/noite).
Recomenda-se o parque de campismo, que tem bungalows.

23.6.15

Repicos: o regresso aos Picos da Europa. pt_3

11 de junho
Cangas-Cangas
O dia com menos quilómetros, mas com muitas vistas.

Fotos de Rui Oliveira

Deixámo-nos dormir. Estávamos cansados dos quilómetros do dia anterior, da chuva e do problema na navegação, que nos obrigou a seguir a autoestrada. Decidimos dar-nos "ao luxo" de ficar mais um bocado a descansar, até porque o percurso para este dia não era longo.

Eu acordei mais cedo. Saí do hotel para ver um bocado das ruas, perceber como era Cangas de Onís. Comprei o pequeno almoço, para aproveitarmos o 6º andar e a varanda que nos calhou em sorte.

A preparação para o pequeno almoço e a vista sobre Cangas de Onís.
Os cacetes espanhóis não são maiores que os portugueses.

Saímos de Cangas de Onís, para redescobrir os lagos de Covadonga. Antes parámos frente à catedral, para tentar perceber se havia limitações na subida, já que o nevoeiro era intenso. Encontrámos um grupo de 3 portugueses (primeira vez nos Picos). Demos alguns conselhos, ouvimos a história deles sobre as chuvadas que já tinham apanhado, e regozijámo-nos com a “secura” do nosso caminho. Como era hora de almoçar, descemos até à entrada de Covadonga para encontrar um sítio para comer o presunto, o queijo e o pão que tínhamos comprado.

Mesmo antes de subir até Covadonga. O sítio onde almoçámos esta mesmo ali ao lado.

Depois fomos até aos lagos. A subida, já de si difícil devido à inclinação e curvas, tornou-se num desafio. O nevoeiro não deixava ver mais de 5/6 metros à frente da moto. Não conseguíamos apreciar a paisagem (que eu sei que é maravilhosa) que nos rodeava. À saída de uma das curvas, um grupo de vacas pastava e passeava-se pela estrada, vagarosamente.

Subida para o lago Ercina, os animais que por lá habitam e o nevoeiro no caminho.

Seguimos até ao lago Enol. Não se via água. Nenhuma. Nem a paisagem que rodeia o lago. Perguntei ao Rui se valeria a pena continuar até ao Ercina. "Sim", disse ele sem tirar o capacete. E lá fomos. 3 quilómetros de estrada estreita, em mau estado, até ao lago. Parámos as motos e o nevoeiro mantinha-se. Decidimos sentar-nos um pouco e fumar um cigarro. E eis que acontece algo que só o "Senhor do Tempo" (o cognome do Rui nesta viagem) conseguiria adivinhar: o nevoeiro levanta, o sol vê-se, a paisagem revela-se. E assim tivemos 10 minutos de sol, calor e de paisagem, com os picos em fundo, ainda com neve.

Mágico.
O lago Ercina, depois do nevoeiro levantar. 

Pose das motos para a fotografia, com o Santuário de Covadonga em fundo.
A minha moto é mesmo linda!

O ponto seguinte era Bulnes e Sotres. Até Bulnes ainda choveu um pouco, mas nada que nos fizesse vestir os impermeáveis. Em Bulnes já não chovia. A registar deste sítio: a água cristalina que circundava as rochas e a enorme queda de água.

E subimos mais, com o objetivo de chegar a Sotres. Mas o nevoeiro era ainda mais denso do que aquele que tínhamos enfrentado nos lagos. Por isso, decidimos parar a meio, ouvir o silêncio, fumar um cigarro. E voltamos a descer até Bulnes para uma melfies (selfies às motos). Podíamos ter feito os percursos pedestres que existem. Mas as botas de andar de moto não são o calçado apropriado. 

Mais poses das meninas. Junto a uma queda de água e a um túnel, como convém.

Depois voltamos para Cangas. O cansaço do dia anterior ainda estava presente. Como ainda era relativamente cedo, andámos às voltas na cidade. Ainda revimos um grupo de Lisboa que encontrámos nos lagos, entrámos nas lojas de souvenirs. Ao fim e ao cabo, esticámos as pernas e ganhámos fome para o jantar.

Como no dia anterior tínhamos comido bastante bem no Polesu, achámos por bem repetir. E se decidimos rápido, rapidamente entrámos lá. Nem vale a pena referir o menu. Foi tão bom como no dia anterior.

 

A ver: tudo o que está no texto. Como o tempo não era o melhor, não deu para visitar Sotres. Mas tudo o resto vale a pena.

22.6.15

Repicos: o regresso aos Picos da Europa. pt_2

10 de junho
Chaves - Cangas de Onís.
O dia com mais quilómetros. O dia que seria mais desgastante. O dia em chegaríamos aos Picos. 



Fotos de Rui Oliveira

Saímos de Chaves depois do pequeno almoço e seguimos a nacional, passando pelas Feces de Acima e as de Abaixo - imagino o que será alguém dizer que vive aqui. Será que existe uma associação das Feces de Cima e de Abaixo? Um problema morfológico humano que daria para uma crónica por si só. 
Duas pequenas panorâmicas de Chaves, mesmo ao lado do hotel.

Já em Espanha, tivemos cerca de 70 km de ótima estrada, com curvas largas, rápidas e quase sem trânsito, sempre pela nacional e a acompanhar a autoestrada. Parámos para meter gasolina mais à frente e demos de caras com uma rapariga de nacionalidade inglesa que andava à boleia. Queria ir para Irún. O Rui ainda pensou levá-la, mas só reparou depois que não tinha espaço no banco de trás da moto. 

De nacional em nacional, parámos para almoçar. Eram para aí duas e meia. Enquanto entrávamos no restaurante cai uma chuvada. Daquelas intensas, rápidas e sem aviso. O almoço foi interessante. Como em muitas zonas de Espanha existe a “tradição” do primeiro e segundo prato. Acabámos por comer muito. Eu comi uma salada mista e uns ovos rotos com bacon, uma coisa que não costumo comer. Mas como precisava de energia, teve de ser. O Rui trincou uma carbonara e uma costela de vaca que, por sinal, estava boa. O vinho não era tão bom. Mas como íamos para a estrada, isso acabou por ser vantajoso, porque bebemos pouco. Não me lembro do nome do restaurante, talvez por causa da “necessidade” de chegar a Cangas. 

As motos estacionadas à porta do Restaurante, mesmo antes de um dilúvio passageiro.

Almoçámos e seguimos caminho... Até o GPS entrar em “modo aventura”. Tentou que fizéssemos fora de estrada...

Como estávamos já com cerca de 250 km rolados, decidimos dar o salto para a autoestrada. E assim foi. 120 km monótonos, com alguma chuva e vento, até voltarmos à N625 que nos colocaria no caminho certo para Riaño. Mas antes disso o Rui avisa que só tem dois traços de gasolina. Eu pensei que a Honda era como a minha. Dois traços = 100 km. Mas parece que não. Em Cistierna, lá tivemos nós de procurar uma bomba, para dar de beber aos cavalos. 

Uma das placas de entrada/saída dos Picos. Era obrigatório parar.

Depois de Cistierna sentia-se o “friozinho no estômago”. Sabíamos que os Picos estavam logo ali. Era a altura de absorver tudo: a paisagem, a estrada, os cheiros que nos levariam até Riaño, o local onde a Hornet foi apanhada a fazer umas fotos para o book dela... 

A descida - e o nevoeiro - que nos levaria a Cangas de Onís. Senti-me um D. Sebastião. 
Mas sem aquele incómodo de me perder e de levar espada.

Depois de Riaño foi curvar e contracurvar pelo desfiladeiro dos Beyos, não sem antes do sentimento D. Sebastião, a furar o nevoeiro denso, enquanto descíamos. Já a chegar a Cangas de Onís (e com o Rui à frente) reparei que o autocolante do ano passado ainda lá estava. Fiz sinal para voltarmos atrás e colocarmos o deste ano ("o bom filho à casa torna", pensei eu).

A entrada em Cangas de Onís. E a prova de que temos bons autocolantes.

À chegada ao hotel, perguntámos por um sítio para comer, onde os pratos fossem típicos e fosse “bom de preço”. Recomendou-nos o Polesu. E em boa altura o fez. Um tasco tipicamente espanhol, com muitas tapas, bancos corridos e servia sidra (para mim a cereja em cima do bolo). 
Foi um quase festim. Provámos o queijo de los Beyos, de cabra. Uma textura impecável e um sabor à altura. Depois seguimos com umas patatas bravas (o molho é caseiro), gambas, calamares e uma sobremesa para o Rui. 15 euros cada um, o que é bem interessante. De notar que uma garrafa de 70 cl de sidra fica por apenas 2,40€ e cada cerveja a 1,60€.

Saímos muito satisfeitos e fomos até um bar já perto do hotel, só para fecharmos o dia.

 

Cangas de Onís
Comer: Polesu. Uma recomendação dada na pensão onde dormimos. Uma ementa rica em tapas típicas e com sidra a acompanhar.
A ver: a zona junto ao rio e a ponte.
Sair: não há muito para ver, mas uma volta pela cidade é sempre um ponto positivo.

19.6.15

Repicos: o regresso aos Picos da Europa. pt_1

9 de junho
Porto-Chaves em autoestrada.
O dia com pouca história.
Fotos de Rui Oliveira

O autocolante da viagem, no topo.

O encontro estava marcado, a moto pronta, as malas carregadas e o depósito cheio. Marcámos na Badalhoca da Baixa para uma sandes de rojão. Comemos, bebemos e acertámos pormenores.

Era altura de partir. 
Mas este primeiro dia não seria nada de especial. Sabíamos que a autoestrada é só uma forma de nos levar do ponto A ao B e sabíamos que chegaríamos tarde. Mas, para salvar o dia sabíamos que iríamos jantar bem. 

Até Chaves só parámos uma vez, no alto do Alvão "porque estávamos com frio". Depois dos 30 ºC que estavam quando saímos do Porto, aqueles 22 graus eram de menos para nós... 
Uma camisola no corpo e um cigarro e voltámos a ligar as motos. E depois mais caminho. Foi por esta altura que reparámos que a estrada estava húmida. Viemos a descobrir que tinha chovido antes. Muito. Pensei que não seria mau, até porque quase todas as viagens que fizemos começaram molhadas... 

Autoestrada, quase, quase a chegar a Chaves.

Em Chaves, o hotel que nos calhou em sorte era exatamente no centro, junto à igreja matriz. Jantámos no Aprígio, que tem uma alheira fabulosa. Depois seguimos com uns ossinhos de assuã, o vinho da casa e um leite creme. Soube bem.

Depois fomos "ver as modas" de Chaves. No centro, a cidade estava animada, por ser véspera de feríado. Falámos sobre o que estaria à nossa frente. Acho que ansiávamos pela manhã do dia seguinte e em chegar a Cangas de Onís.



Chaves

Comer: Restaurante Aprígio. Largo Trás do Calvário. Das melhores alheiras que já comi.
Dormir: Como em quase todas as viagens, procurámos o sítio mais barato. Desta vez, optámos por dormir no centro da cidade. Utilizámos o booking para a reserva.
Sair: Fomos até aos bares na rua da Adega Faustino.

9.6.15

Repicos: o regresso aos Picos da Europa. pt_0

Somos dois. Repetimos a viagem. Repetimos alguns destinos. Repetimos a vontade de fazer quilómetros. Repetimos uma parte das férias. Repetimos também a partida a seguir ao trabalho.Tanta repetição, deu no Repicos, a "viagem grande" deste ano.

No ano passado, eu o Rui e o Gonçalo fomos até aos Picos da Europa. Uma viagem de 6 dias, com muitas curvas, paisagens maravilhosas e muitas histórias para contar.
Este ano estávamos a pensar noutra viagem. Seriam 4 ou 5 motos (adicionar-se-iam à viagem o Ricardo e o Eduardo). Pensámos numa volta raiana: fazer Portugal pelo interior, com um ou outro salto a Espanha, com início em Vila Real de Santo António e o final em Caminha parecia-nos bem. Teríamos muitas curvas, rios, paisagens, bons sítios onde comer... tudo aquilo que faz parte de uma boa viagem de moto. Mas depois vieram as desistências. Um porque teve um acidente (grave só para a moto) e outro por motivos pessoais.

E chegou a altura de repensar tudo. Faltaria um mês para o início da viagem. Estava eu, o Rui, o Gonçalo e a namorada alinhados. Ótimo. Começam-se a planear rotas, a pensar em estradas, a ver dormidas. E eis que a duas semana o Gonçalo desiste. A moto estava com problemas no motor... fico eu e o Rui. Onde vamos, onde vamos? Sul de Espanha? Não tínhamos dias de férias suficientes. Seriam muitos quilómetros diários, seria mais esforço que outra coisa.

Vamos aos Picos. Pareceu-nos bem. Queríamos descobrir pontos que não vimos o ano passado. Íamos ter um dia mais tranquilo, para vermos mais explorarmos a área, tirar mais fotografias.
E assim será. Faltam 6 horas para a partida. Hoje, depois do trabalho, vamos até Chaves, o nosso primeiro ponto de passagem. Amanhã chegaremos a Cangas de Onís... já falta pouco.

17.6.14

Vamos aos Picos da Europa e voltamos já (5/5)

Dia 05: o regresso
O dia que toda a gente sabia que ia acontecer, mas que ninguém queria que acontecesse. O dia em que nos íamos despedir de Espanha, de todas as curvas. Estava previsto que seria um dia de autoestrada. Ao pequeno almoço decidimos que não íamos passar outra vez em Bragança.

Íamos fazer autoestrada até Verín, na fronteira com Chaves. 228 km feitos. Sem história.

Saímos antes da indicação dada pelo GPS. Ainda bem. Mais CCV durante 7 km. Almoçámos e conversámos. E saímos até Chaves pela Nacional, através de uma terra chamada Feces de Baixo (não, não é um erro). Entrámos em Portugal e "caiu-me a ficha" QUILÓMETRO 0 DA NACIONAL 2!!!!

Foto!! Calculei o caminho pela nacional 103, para não nos aborrecermos até Braga. O GPS indicava quase 2 horas até Vieira do Minho. Pois bem, foi menos. Muito menos. Até ao Alto do Rabagão eu queria que a minha moto tivesse 7 velocidades. Nem me lembro da quantidade de vezes que a tentei engatar. A sucessão de curvas rápidas, bem desenhadas, com um piso espetacular e sem trânsito era incrível. Tive pena de só colocar a Gopro a filmar depois da barragem.
Continuámos junto ao Gerês até pararmos no café onde tirámos a foto mítica de há dois anos. O café onde um dos trolhas prometeu que iria connosco até ao Algarve, se a GSX-R dele estivesse com pneus novos.
Depois disto foi fazer a nacional até Braga, entrar na autoestrada e chegar a casa.
Chegámos ao Porto por volta das 20 horas, mais coisa menos coisa.

Disclaimer:
a) O Jorge e a Inês. Eu tenho um problema com os nomes das pessoas. Não me lembro deles. Esqueço-me e confundo-os. E foi o que aconteceu. A Carla foi quase sempre chamada de Inês. E o Gonçalo de Jorge. Isto porque me faziam lembrar outras duas pessoas.

b) O cansaço. A viagem foi - por várias vezes - muito cansativa, ao ponto de julgar que continuávamos a rolar movidos graças a partes iguais de gasolina 95 octanas e adrenalina. Mérito seja dado à Carla que carregou uma mochila durante todo o tempo, sem resmungar - como seria de direito! - nem mesmo quando a Hornet teimava em levantar a roda da frente para poupar pneu. Uma pendura exemplar!

E fica o que me lembro. Obviamente que há muitas (pequenas) histórias que aconteceram, muitas gargalhadas despregadas sobre situações que inventamos. Mas a verdade é que quero voltar. A verdade é que quero ter mais tempo para explorar verdadeiramente os Picos da Europa. Ir aos sítios que não conseguimos ir, descobrir mais sítios. Fica a dica para 2015.

Vamos aos Picos da Europa e voltamos já (4/5)

Dia 04: Potes - Fuente Dé - Posada de Valdeón - León
Voltámos a ignorar o autocolante. Mas isso vem mais à frente. Este foi provavelmente o dia com as melhores curvas dos Picos. O percurso entre Potes e Riaño foi mesmo para desgastarmos as laterais dos pneus.

Depois da "Pipi Room" do pequeno almoço, fomos para a estrada. Mais curvas e contracurvas para curtir. E muito. Tanto que tivemos de parar em Potes para beber uma cerveja, que a boca estava seca de tanto esforço.
Seguimos para Fuente Dé. Escusado será dizer que mais curvas (a subir) surgiram. Bem, para poupar nos carateres, sempre que referir curvas e as respetivas contracurvas, vou escrever CCV. Até Fuente Dé foi sempre em CCV largas, bem feitas. Até chegarmos a Fuente Dé. Fuente Dé assusta. O Rui queria subir o teleférico. Ou que ele caísse para ter o exclusivo das fotos para um jornal. Acabámos por não subir. Ficámos apenas parados a ver aquele colosso natural. E a comer os "embutidos" que sobraram da noite anterior.

Descemos até Potes. Como estávamos com fome, combinámos almoçar na primeira terrinha que aparecesse. Parámos, mas foi o Rui e a Inês que encontraram o tasco com uma esplanada num jardim sombreado por frondoso arvoredo. Pelo menos parecia ser um jardim… a entrada era encimada por uma placa em que se podia ler: “El curral”.

Ficámos uma hora e meia a almoçar, a comentar o dia anterior e o pouco que tínhamos feito desse dia. Eu propus ignorarmos a Posada de Valdeón. Eu pensava que ainda tínhamos autoestrada (e a respetiva seca que representa) para fazer. Foi uma decisão difícil, mas alguém tinha de a tomar.

E "'bora lá fazer caminho". Começámos a subir em estrada de montanha. Mais uma vez, muitas CCV para curtir. Foram as melhores CCV em Espanha, porra. E o Rui filmou só a parte final. Tenho a dizer que foram para aí 20 minutos em que a moto levantava de uma curva e se deitava na seguinte. FOI LINDO, ÉPICO, MARAVILHOSO. E eu não gosto de adjetivos. Catalogámos a estátua do cervo. Apreciámos a paisagem. Ligámos as motos. Seguimos caminho. CCV, CCV, CCV, CCV, CCV. Até chegarmos à placa que indica os Picos da Europa. Mais uma tagada. ;)

Seguimos até Riaño, para nos despedirmos do carrossel que são os Picos. Eu contava com 20 km de curvas (as mesmas do segundo dia, depois de sairmos da autoestrada) e depois autoestrada até León. Comentava que seria bem porreiro fazermos nacional a 100 km/h, coisa impossível em Espanha. Pensava eu. Foi meia hora de nacionais, com algumas curvas à mistura, até que fomos obrigado a entrar na autoestrada. Felizmente foi curta.

Chegámos ao hotel.
León estava prevista com a cidade "para curtir e beber umas cañas". Como se não tivéssemos feito isso nos dias anteriores. ;)
León tem uma particularidade. Há dois bairros (o húmedo e romântico) em que, se pedires uma cerveja, oferecem-te de comer umas tapitas. E assim o fizemos. Em 5 ou 6 bares diferentes. Mas acho que o sítio onde fomos mais felizes foi no (bar) Bacanal.

A noite foi pródiga em piadas e histórias, ao ponto de me descair e contar a todos que a minha bebida favorita é gin Bosford quente misturado com whisky. (Obviamente que isto foi o que toda a gente percebeu. A verdade é que só bebo água com gás.)





Vamos aos Picos da Europa e voltamos já (3/5)





Dia 03: Oseja de Sajambre - Cangas de Onís - Carreña - Torre de Cerredo - Tresviso - Panes
Este foi o primeiro dia em que ignorámos (eu ignorei) o percurso que tínhamos planeado. O percurso oficial foi este: Oseja de Sajambre - Cangas de Onís - Covadonga - Lago Ercina - Panes

A pergunta é: porquê?
A resposta é simples: porque sim, porque nos deixámos levar pela estrada, porque eu me tinha esquecido de incluir Covadonga e os seus lagos. E porque podíamos.

Eram 10 da manhã quando o Rui entra no nosso quarto e pergunta se já estávamos prontos. Devia estar a tentar compensar a espera de uma hora e tal do primeiro dia. Estávamos quase. Demorámos mais dois minutos.

Depois de pagarmos o hotel e já com as motos preparadas, conhecemos o Djik. Djik é um holandês, na casa dos 60 anos. Tinha reservado 4 semanas para andar de moto. No dia anterior tinha saído de Lisboa, passado pelo Porto, etc. 12 horas de moto. Sim, 12 horas. A moto dele tinha tudo: tenda, saco cama, roupa e comida. Mas não era um daqueles cavaleiros do asfalto porcos. Era um senhor respeitável, com um inglês muito bom e muito boa disposição. A certa altura alguém perguntou se a esposa não andava com ele. A resposta foi a clássica:
"- Não. Ela não gosta de dar cabo do cabelo e das unhas. Por isso é que tenho estas 4 semanas para andar de moto e depois vou uma semana com ela, de autocaravana".
Falhámos ao não tirar uma fotografia com ele, porra!

Entretanto um tuga montado numa colossal KTM 990 ouviu-nos falar em ir à farmácia ali ao lado comprar algo para a constipação da Inês (a ver se ela se livrava do que tinha trazido a mais. Afinal de contas, a moto do Rui não tem capacidade para levar muita coisa e a mochila que ela, valentemente, carregou durante toda a viagem estava a abarrotar). Sabendo que era domingo - por esta altura já tínhamos perdido a noção do dia da semana - desenrascou-nos com paracetamol e ibuprofeno. Era um bom tipo. Podia ter comprado uma GSA mas preferiu a 990. Às tantas, se tivesse a GSA, não tinha sido tão prestável.

Às 11 horas já tínhamos as motos atestadas e estávamos sentados para o pequeno almoço. Seria este o dia de passagem por Cangas de Onís, um dos sítios badalados desta zona. Até lá íamos passar no Desfiladero de los Beyos. Esta zona é incrível. Várias mãos cheias de curvas, uma estrada impecável e muitas aldeias típicas a ladear a estrada. E motos a cruzarem-se connosco. E toda a gente se cumprimentava, exceto alguns paneleiros portugueses, quase todos de GSA, os cabrões.

Parámos a meio da estrada do desfiladeiro para tirar uma fotos. A esta altura já estava calor. Tanto que fomos "obrigados" a tirar os forros dos casacos. Isto depois de pensarmos que ia ser um dia de chuva.
Antes de sairmos apareceu um conhecido meu. Parou e estivemos a falar. Sugeriu irmos aos lagos de Covadonga. Que a zona era mesmo maravilhosa, que parecia um wallpaper de computador.
E lá fomos. Parámos à entrada de Cangas de Onís para marcar o pilar. E passámos pela localidade sem parar. Tinha gente, muita gente nas ruas. Parecia a Apúlia em agosto.
Continuámos até Covadonga, onde almoçámos durante duas horas. Fotografámos a Catedral, a igreja "cravada" na rocha e depois siga para o Lago Ercina. A subida é íngreme, apertada e tem muitos carros. Ultrapassar é difícil, mas possível. E quando se começa a ladear outra parte da montanha temos a vista... é impressionante.



A esta altura, a Catedral de Covadonga é um pontinho na fotos. De um lado temos muito sol, do outro um pico com neve. Era para lá que íamos. No caminho vemos muitas pastagens. Vacas e ovelhas passeiam alegremente nos prados, nas estradas e nas rochas. Aquilo é mesmo delas. Até a estrada.

E chegámos ao lago Ercina. E o meu conhecido tinha razão. É digno de wallpaper. Bebemos uma coisita fresca e seguimos o Rui e a Inês para a "pradaria". Era um relvado ENORME, com o lago em frente e os picos com neve em fundo. Deitámo-nos na relva a ouvir os ritmos dos badalos das vacas. Acho até que um de nós adormeceu. Ficámos a apreciar a paisagem e o som para aí uma hora. Era um dos pontos altos da viagem. Descemos até Covadonga outra vez e virámos em direção a Panes. E aqui apareceu um parque de diversões de curvas. Rápidas, bem feitas, num piso irrepreensível. Nota negativa apenas para a mosca mal-cheirosa que decidiu terminar a sua vida no meu capacete.


Encontrámos o hotel, preparámo-nos para jantar e saímos para comer. Mas não sem antes o Jorge explicar aos donos do hotel que chegaríamos depois das 00:30. Em português. Foi maravilhosa ver a cara deles a olhar para o Jorge, sem perceberem puto. E reparar no olhar do Jorge a chamar-me, enquanto descia as escadas para a receção.
Fomos a um tasco pelo qual tínhamos passado antes. Uma tábua de queijos e enchidos, umas "flechas" (Jorge, és o maior), cañas a rolar e conversas pelo meio. Foi nesta altura que a Inês contou como ela e o Rui se conheceram (se quiserem saber, perguntem-lhes, que eu não revelo nada). Também foi no meio desta conversa que o Rui falou das suas habilidades em saltos de bicicleta inacabados e como se consegue ajoelhar, depois de cair de moto.
Era domingo e perguntámos se existia algum sítio para bebermos mais umas cervejas. Pé ante pé e fomos dar a um café só com pessoal mais velho a ver fórmula 1 (não, não era o Rui a fazer estrada).

Mas antes tivemos outro momento grande, quando os três elementos masculinos foram brincar para os baloiços e para o escorrega. As fotografias foram todas apagadas. É pena, porque o Rui voltou a demonstrar o modo como se deve sacar numa moto e fazer "paradinhas". Mas eu acho que o Jorge estava a fazer melhor. Pelo menos no estilo.

E assim terminava este dia. Pessoalmente, estava extasiado. Tínhamos percorrido estradas fabulosas, conhecido sítios quase mágicos. Estava feliz. E apesar das dores de rabo, era capaz de fazer isto para sempre. :)

Vamos aos Picos da Europa e voltamos já (2/5)

Dia 02: Lago Sanabria - Riaño - Boca de Huérgano
Saímos do Parque, já com o pequeno almoço tomado, por volta das 11:30. O objetivo era passar no Lago Sanabria, em direção a Boca de Huérgano.
Furámos o Parque do Montesinho pela N-103-7, num desenrolar de curvas bem engraçado. Chegámos a passar por França. Sim, que nós gostamos de ir pelo sítio mais longe para chegar aonde queremos.
Em Puebla de Sanabria resolvemos dar uma volta a pé pela localidade e tirar umas fotos. Enquanto isso, o Gonçalo e o Rui iam contando algumas histórias da zona onde vivem (Rio Mau).

Resolvemos que íamos comer alguma coisa por ali. Fomos ao tasco que pareceu ter mais gente e pedimos um desenrolar de tapas. Depois de comermos, e enquanto fumávamos o nosso cigarro, três portugueses estavam a sair do restaurante. Metemos conversa.
"- Para onde vão?"
"- Ainda não sabemos muito bem. Temos umas ideias de onde queremos ir, mas não é nada certo".
"- E fazem sempre isso?"
"- Sim, desde há 20 anos que saímos de casa, metemo-nos nas motos e vamos andando com as coisas mais ou menos planeadas. Mas agora vamos para aquele lado, que parece que está sol".
E ficámos malucos. Aqueles três homens, todos eles com bastante mais de 50 anos, tinham o verdadeiro espírito de aventura. Uma grande lição, sim senhor.

Lago Sanabria era o ponto seguinte. Lá fomos nós, a curtir umas curvas, sempre com o rio como companhia. Bem bonito. Chegámos ao Lago, apreciamos um bocado a vista. A temperatura estava pouco convidativa a banhos. E como o sol era fraco, também não dava para fazer praia. Acho que só pensávamos em aproximarmo-nos dos Picos da Europa. E como era isso que queríamos, assim o fizemos.
Seguimos caminho sem tirar do saco os calções de banho, transportados a pensar na água cristalina de Sanabria.

Na autoestrada não foi a chuva, mas o vento a "abençoar-nos" o caminho.
Parámos numa estação de serviço que, naquela altura, assistia a uma concentração de asiáticos (coreanos?). Dançavam, cantavam e houve um deles que parecia interessado na minha moto. Ao ponto de eu pensar que ele se ia sentar nela e arrancar. Durante as danças que se faziam, alguém exclamou "Bem, com 50 e aquela elasticidade, sim senhora..."

E continuámos. Saímos da autoestrada e as nacionais eram, finalmente, o trajeto. Para não termos surpresas desagradáveis reduzíamos sempre para os 50 km/h nas localidades. Logo a seguir, subíamos para velocidades mais engraçadas. E foi em Cistierna que começámos a sentir que esta era "a viagem". As escarpas começavam a fazer parte da paisagem, bem como as curvas. Passámos por uma barragem, que ativou o "modo Picos". Sim, eram curvas de montanha, com uma paisagem incrível, aqueles ferros que nos dizem que há neve no inverno, por aquelas paragens. E continuámos. Tenho a certeza que todos nós levavam um sorriso de orelha a orelha (não sei se a Inês levava o mesmo sorriso, confesso. Até porque estava adoentada e, convenhamos, era o Rui a levar a moto).
A certa altura parei. Estava eu e o Gonçalo... mas e o Rui e a Inês?

Era uma reta depois daquelas curvas maravilhosas. Acendemos um cigarro, esperámos, esperámos... o Gonçalo tenta ligar para o Rui, sem sucesso. Esperámos mais um pouco. E é num silêncio ensurdecedor que ouvimos aquilo que poderia ser um fórmula um: acelerações, trocas de caixa, mais acelerações, rotação "lá em cima". E vemos a moto do Rui a descer, até nós. Vinha depressa. E mesmo à nossa frente para a moto em slide e com o pneu de trás aos saltos, a tentar agarrar-se ao alcatrão: ta-ta-ta-ta-ta… sempre com estilo, claro! “Ficamos a saber que a Hornet tem ABS”, disse o Jorge. E soubemos depois que a Inês sabia gritar muito alto quando andava de moto. Mas nós não ouvimos nada.

Continuámos até Riaño. No caminho ultrapassámos umas vinte vespas. Era um Grupo de Vila do Conde que ia a Itália, à concentração mundial de Vespas. A chegada a Riaño fez-me lembrar a viagem do ano passado quando, em pleno Alentejo passámos uma ponte enorme sobre a Albufeira do Alqueva. E continuámos em curva e contracurva até Boca de Huérgano.

Foi um ótimo dia. Depois daquelas retas e da velocidade da autoestrada recebemos aquele "rebuçado" de muitas curvas, de montes de motos a passar por nós, das fotos em cima de um fardo de palha, junto à estrada. Era mágico.

Como não queríamos pegar nas motos, tapeámos pelo hotel. Houve uma besta (eu) que pediu sidra. Um olhar mortífero e uma resposta seca fez com que me apercebesse que não era aquele o sítio dela. Para ajudar à festa outra pessoa pediu pimentos de Padrón. Recebeu a mesma resposta que eu.

Umas cervejas depois estávamos a jogar uma espécie de jogo de copas, com regras de UNO, pesca e sueca. E enquanto o Jorge e o Rui discutiam as regras, a Inês assoava o nariz compulsivamente e tomava mais umas drogas contra a constipação que tinha trazido de casa (as mulheres trazem sempre coisas a mais, todos sabemos).

Vamos aos Picos da Europa e voltamos já (1/5)

A verdade é que já estava à espera desta viagem há algum tempo. A verdade é que queria ter mais tempo para "entrar em mais sítios" dos Picos da Europa. A verdade é que gostaria de repetir esta viagem. De preferência com pendura.




Dia 01: Porto - Bragança
17:30. Foi a hora que marcámos para o encontro. Seria frente ao Bar Praça (na Praça Filipa de Lencastre). Cheguei 5 minutos mais cedo. Estava ansioso. Desde as 10 da manhã. Queria pôr-me na moto e rolar e ver paisagens, curtir curvas, comer, "curtir" com as pessoas que ia rolar comigo: o Gonçalo (Jorge), o Rui e a Carla (Inês).
17:30. Pedi um fino e acendi um cigarro. Estava sozinho. 10 minutos depois chega o Gonçalo. Pediu um fino. Fomos bebendo, contando histórias, antevendo (mais ou menos) o que estaria para vir.
"- O Rui? Não será melhor ligar?"
"- Ele diz que chega daqui a 10 minutos"
"- Sendo assim, é melhor pedirmos o segundo fino"
"- Gonçalo, não bebo mais, pá. Quero estar seguro na estrada e tal."
Continuámos a falar. Acabei por pedir outro fino. A meio do fino chega o Rui.
"- Pessoal, estou com fome, vamos comer qualquer coisa"
Siga! Tasca da "Badalhoca" na Rua da Picaria. Sandes de rojão e uma cerveja. Cigarro, piadas, e afirmações absolutas.
"- Estou ansioso por esta viagem, vai ser épica!".

Motos, Autoestrada. Caminho sem história. Marão (IP4). Gonçalo à frente, a cortar nevoeiro com uma destreza e velocidade que me deixaram de boca aberta. A esta altura já os fatos de chuva estavam vestidos. Parámos mais à frente. Cigarro e "Será que vai chover?". Seguimos. Começou a chover. Muito, demais. Pequena paragem "Pá, estou com pouca gasolina". Siga para um posto de abastecimento. Chegada a Bragança às 22:30. Abastecimento. Idalina bate recordes.

"Bem, temos de arranjar um restaurante". Chegámos a um, que estava quase a fechar. Comemos 4 postas e bebemos duas garrafas de vinho. O Gonçalo negoceia uma para levarmos mais uma para o bungalow e mete conversa com o dono do restaurante sobre as consequências da política centralista do governo, da interioridade, emigração, regionalização... conversa de circunstância: para um comuna.
Saímos quando o Rui assim o permitiu - após a obrigatória sobremesa. Tinha parado de chover. "Fixe", pensámos nós. No caminho para o Parque de Campismo, alguém se lembrou de voltar a abrir a torneira lá no céu. E molhámo-nos. Muito. Mas o que interessa é o Rui comeu a sua mousse de chocolate!

No Parque de Campismo valeu a disponibilidade do rapaz que lá estava. Deixou-nos entrar com as motos, por um caminho de terra batida, até ao bungalow. Como havia aquecedores, as botas e luvas foram todas para junto dele para secar.
Ficámos na conversa até às 4 da manhã, enquanto íamos vendo o jogo de Portugal. Sem o sabermos - porque a noite estava escura como breu - um motard (holandês?) dormia ali ao lado, na sua tenda de campismo.